PERFIL – PAULO BRABO

Havendo um Deus ou coisa parecida
Como estou supondo que haja
(e deixo às vezes que chamem essa pia insen­sa­tez de fé)

Estou sabendo que ele pode ser impla­cá­vel como um tirano
e deixar-me apo­dre­cendo por anos na masmorra
sem aliviar a pena e sem dar satis­fa­ção
Ou sonso como um amante
e cobrir-me de presentes e fazer todo tipo de bobagens só pra me agradar;
pode inclusive ser ao mesmo tempo as duas coisas, o fanfarrão,
pelo prazer puro e simples da exuberância.

Ele não cabe na caixinha que lhe pre­pa­ra­ram os teólogos
Nem na caixona que eu, que tenho mais humildade e cabeça maior, lhe dediquei:
quando estou pronto para dissecá-lo ele me escapa da mão.

E quer dançar quando quero sossego,
Quer dormir quando quero conversar,
Bate na porta quando não estou para ninguém,
E, com maior freqüen­cia, vice-versa.

Ele não me deixa em paz
E con­sis­ten­te­mente me ignora
E sua imprecisa lacuna me define.

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